11 de Fevereiro de 2019

Missão Brumadinho

A ideia

Ajudar de alguma
forma. Essa era
a missão.

Diante ao desastre que aconteceu na cidade de
Brumadinho, nasceu o anseio de ajudar aquela
comunidade de alguma forma.

Na madrugada do dia 11 de fevereiro,
segunda-feira. A Base 48 partiu para
uma missão que seria uma das mais
emocionantes e importantes em sua história.

Emoção, trabalho e sentidos à flor da pele. Nos
acompanhe nessa experiência e entenda como
foram aqueles dias, e no que pudemos
auxiliar a cidade de Brumadinho.

Primeiro insight.
Contato com Brumadinho.
Mudanças de planos.

Arthur:

Dia 02 de fevereiro, um sábado a noite, vendo as notícias sobre o que ocorria em Brumadinho, surgiu a ideia de ajudar. A princípio, apenas levando o Jeep como veículo para transportar os bombeiros na busca pelos desaparecidos. Logo compartilhei a ideia com Raul, que sem muito pensar, topou a ideia.

Ao ver a estrutura da operação, ainda de longe, constatamos que apenas o veículo seria pouco. Pensamos então em utilizar nossas ferramentas de trabalho como forma de criar uma base de dados mais inteligente para cadastro de voluntários, por habilidades e período disponível.

Buscamos o contato com Gustavo Ziller, que foi palestrante de um evento do qual produzimos no ano passado, e que estava no Vale do Córrego do Feijão, local da base de operações, implantando uma ferramenta para rastreamento via GPS das pessoas em campo, garantindo a segurança do efetivo.

Vimos que uma das pessoas responsáveis pela operação seria Capitão Farah. Após contato com ele pelas redes sociais, apresentamos nossa proposta. O mesmo nos respondeu que estavam encontrando dificuldades para o fechamento da lista de desaparecidos. Logo procurei o Rodolfo Souza, que é nosso responsável pelo setor de tecnologia, e sinalizou que seria possível adaptar nossa ferramenta para essa função.

Com o propósito alinhado, definimos que a data de saída seria na semana seguinte, onde pudemos organizar as pendências e nos programar para viagem.

Da ideia à estrada.
Minas Gerais é logo ali.

Dia 11.02 . Segunda-feira

Raul:

Era quatro da manhã e meu despertador tocou. Acordei facilmente e dei um pulo regido pelo entusiasmo da viagem. Logo mandei mensagem para o Arthur que me respondeu na mesma hora com o mesmo ou maior entusiasmo. Não demorou muito, estávamos de fato na estrada. Ainda era escuro, quando botamos um som forte para começar com o pé direito. Vibramos ao ver o sol nascer após Floripa, ao ver que ele nos acompanharia por alguns quilômetros pela frente.

Em Joinville fizemos nossa primeira parada. A viatura merecia descanso, afinal de contas, o Willys com 55 anos faria sua primeira ultramaratona. Tomamos um café, trocamos mensagens com os amigos e familiares, Dudu averiguou se estava tudo certo com o carro e partimos.

Abastecidos, tocamos viagem até um posto em Cajati, São Paulo sob sol forte, castigando o motor do Jeep. Levamos até a rampa para averiguar alguns ruídos suspeitos enquanto e aproveitamos para almoçar. O calor estava insuportável e tivemos algumas paradas para esfriar o motor, até a chegada em Osasco, local em que conseguimos passar a noite na casa de conhecidos, excepcionalmente bem recebidos por seu Ivaldo, Ana e Márcia.

Dia 12.02 . Terça-feira

Eram 4h quando acordamos para o dar início ao segundo dia de viagem. Recebemos uma mensagem do capitão Farah dizendo que estava nos esperando e com expectativas para resolver o problema.

Pegamos a estrada rumo a Brumadinho, que nos separava a cerca de 400km. No meio do caminho, notamos um ruído diferente no Jeep. Andamos lentamente cerca de 4km até Cambuí onde achamos uma mecânica e, como de costume em Minas Gerais, nos atenderam muito bem. Após a desconfiança posta a prova, vimos que estava tudo certo com o Jeep, nos surpreendendo a cada quilômetro percorrido. Viagem que segue.

Passamos por cidades vizinhas onde a situação era precária. Muito barro nas construções, estradas e veículos devido às minas próximas. A população era visivelmente carente e sentimos o clima mais pesado. Chegando na cidade de Brumadinho após cerca de 400km rodados, esse sentimento foi se ampliando. Nosso objetivo era ir até o Córrego do Feijão, local onde se situava a base de operações do Corpo de Bombeiros.

Enquanto andávamos perdidos, já que diversos acessos estavam interrompidos, vimos um carro de longe. Pedimos para que parasse: eram duas mulheres de colete. Ela informou que estava indo para o local, mas que a rota passaria por dentro da mina da Vale, onde precisaríamos de autorização. Falamos que tínhamos contato com o Capitão Farah, então ela disse que poderia nos guiar até lá.

Ao passar pelos portões que davam acesso à mina, nos deparamos com um cenário de filme. Estrada de chão de areia avermelhada, muita poeira, mato e algumas placas que vez ou outra passavam por nós. Assim que notamos que estávamos dentro da mina da Vale, pensamos: objetivo cumprido!

A expectativa foi rapidamente cortada no segundo portão, onde tinha uma barreira da Polícia Militar. Algumas mensagens do Capitão Farah não foram suficientes para liberação, queriam algo mais concreto. Todos eles nos trataram com muita educação, oferecendo-nos água e sombra para esperar, enquanto solicitamos uma confirmação do Capitão para que autorizassem nossa passagem.

Depois de alguns minutos, nos deixaram ir, sob aviso de que teria um outro portão à frente. Dessa vez com pessoas da Vale. Ou seja, não seria necessário somente o aval do Capitão, mas sim de alguém da Vale autorizando. Agradecemos a recepção, subimos no Jeep e seguimos o trajeto.

Dali há poucos minutos estava o portão, com um cone que dividia as mãos da estrada de barro e uma guarita amarela à nossa direita com dois vigilantes. A medida que nos aproximávamos, um deles saía da sua cadeira e ia para frente do Jeep. Paramos e ele, sem demora, disse que só entra quem é autorizado pela Vale.

Pedimos então novamente por mensagem que o Capitão Farah resolvesse isso. Ele disse que já estava providenciando. Sentamos junto aos guardinhas para aguardar e conversamos sobre o acontecimento, a região e coisas da vida. Um dos guardinhas gostava bastante de falar e contar histórias. Enquanto falávamos sobre os mais diversos assuntos, a preocupação de não conseguir entrar e a demora da nossa resposta aumentava. Frases como “É muito difícil entrar aqui”, “Se ele é do bombeiro não adianta muito, precisamos de autorização da Vale” entre outras especulações eram comuns, mas aguentamos firmes. Quando deu uma hora e meia de espera, resolvemos questionar o Capitão sobre a nossa entrada, se estava dando certo. Ele ficou espantado de estarmos esperando tanto tempo ali e disse que estava tentando resolver.

Quando chegou perto das duas horas de espera estávamos desmotivados e achando que não daria certo. Encorajados pelos guardas que não estavam botando muita fé em nossa história, resolvemos voltar e ir pelo segundo caminho, que não precisava passar pela mina, mas adicionaria alguns quilômetros a mais.

Voltamos para o Jeep decepcionados. Arthur muito contrariado por não conseguir completar o primeiro objetivo, antes de entrar no Jeep voltou para fazer um último questionamento aos guardas. Assim que ele se aproxima, o rádio toca. Era o nosso aval de passagem. Vibramos muito, embarcamos no Jeep e partimos após a chegada de um veículo que a Vale havia providenciado para nos guiar até a base do Corpo de Bombeiros. Rodamos cerca de 15 minutos até chegarmos no Córrego do Feijão.

A chegada.

Cerca de 18h, chegamos no local onde até então só tínhamos visto pela TV ou por vídeos na internet. Um campo de futebol à nossa esquerda, onde não paravam de pousar e decolar helicópteros. À direita, um pequeno cemitério da comunidade. Seguimos caminho até entrar no local onde estavam os militares. Tudo era muito rigoroso, não era qualquer um que entrava no local.

Raul “Eu estava muito receoso com a situação e fiquei um pouco afastado. Assim que Arthur perguntou ao bombeiro pelo Farah, ele apontou para a frente e disse que o guiaria até ele. Arthur olhou para mim, dando sinal que teria dado certo o contato, então me juntei a eles. Ali pertinho estava o Capitão. Um cara grande, um pouco agitado e muito simpático. Nos apresentamos de forma rápida e logo ele procurou um lugar para que pudéssemos apresentar a nossa ideia.”

Agora já estávamos dentro da base de operações do corpo de bombeiros, junto com Capitão Farah e também a Tenente Luíza, responsável pelo setor de inteligência que nos acompanharia até o final dessa missão. Nos apresentamos, falamos qual era nosso objetivo ali e demonstramos a ferramenta e sua aplicação em seu uso comercial. Eles nos apresentaram as dificuldades que estavam tendo com as listas de identificação dos desaparecidos. Nossa conexão foi aumentando ao presenciar as dificuldades e nos aproximar do ambiente, que permitiu entender com melhor clareza os desafios enfrentados para arquitetar uma solução em conjunto, que de fato trouxesse maior eficiência ao trabalho.

Quando terminamos a reunião, nos trataram muito bem, preocupados com o nosso bem-estar, oferecendo comida, bebida e perguntando se tínhamos onde ficar, oferecendo ficar junto a eles alojados dentro da igreja que servia de base de operações caso não nos importássemos. Uma honra para nós civis, que estávamos em uma área estritamente militar.

Nos alimentamos, fomos devidamente identificados com crachás e coletes e logo em seguida achamos um lugar na área de convivência para iniciarmos nosso trabalho. Focados, começamos a formatar a ferramenta conforme o briefing. O comando já estava se preparando para descansar enquanto trabalhávamos. Mais tarde, nos reunimos novamente para apresentação do escopo, onde fomos ajustando cada item em conjunto. Depois de muito trabalho e conversa, achamos por bem encerrar as atividades do dia, para que no dia seguinte estivéssemos em condições para continuação. Conhecemos então o Capitão Tristão, figura muito querida e carismática, que nos apresentou muito atenciosamente o contêiner que servia para banho e o espaço na igreja onde dormiríamos. As imagens sacras dividiam espaços com mapas da operação. Um colchão no chão nunca foi tão confortável.

Dia 13.02 . quarta-feira

Era 5h30 da manhã, o sol nem tinha raiado ainda e nós já estávamos de pé. Seria um longo dia de trabalho. Tomamos café da manhã, nos arrumamos e antes das 6h30 estávamos prontos. Acompanhamos o briefing do dia e a oração em conjunto do efetivo. Tenente Luíza nos indicou um lugar que pudéssemos trabalhar, na área de descanso ao outro lado da igreja. O lugar era tranquilo, até a chegada dos helicópteros. Solicitamos um local mais reservado, dentro da base de operações, onde tivemos o aval e nos adaptamos a uma pequena mesa disponível. Agora já estávamos com a nossa Base, dentro da base.

Em conjunto com a Tenente Luíza, cruzamos todos os dados, afinamos a ferramenta e trabalhamos na dinâmica de sua aplicação, junto com Rodolfo que nos dava suporte a distância. Recebemos a informação do Capitão Farah de que teria uma reunião com o comando geral da operação e apresentaria a ferramenta à eles. O tempo ficou ainda mais escasso, onde aceleramos o processo para entrega em tempo. Após a tensão, o orgulho tomou conta. Pudemos sentir a conexão que temos em equipe e a capacidade de agir em situações extremas. Pra falar a verdade, aqui entre nós, acreditamos que é exatamente isso que nos move.

Após a entrega do protótipo da ferramenta aos oficiais para a reunião que decidiria o futuro de sua aplicação e do nosso trabalho ali, tomamos um café, comemos algo rápido e voltamos ao trabalho em busca de possíveis melhorias, sempre com a atenção total da Tenente Luíza para eventuais dúvidas sobre a operação. Se forjava ali, mais um dia intenso e de muito trabalho.

Com a volta da reunião, a segurança dos dados e questão da mídia voltar a atenção para ferramenta nessa fase da operação, fez com que o comando solicitasse a aplicação de maneira fechada, sob sigilo. Formatamos então uma nova plataforma para que a aplicação se desse através de um contato direto, via telefone ou pessoalmente, não aplicando de forma aberta através de um site.

Soubemos então que o efetivo atual seria substituído por completo no dia seguinte, o que poderia afetar a continuidade da aplicação da ferramenta. Trabalhamos incansavelmente para deixá-la pronta para uso antes desta alteração.

Dia 14.02 . quINta-feira

Como de costume durante os dias que estivemos lá, acordamos 05:30 para mais um dia de trabalho. Com a ferramenta pronta e com a expectativa sobre a nova coordenação da equipe, continuamos a trabalhar no projeto. Tendo em vista que pessoas próximas do local conheciam desaparecidos, sugerimos a aplicação como forma de verificar a funcionalidade da mesma.

Foi então que a Tenente Luiza chamou um dos trabalhadores do local, responsável pelo setor de limpeza, para que pudesse repassar as informações. Até então, trabalhávamos apenas com listas. Listas passaram para nomes. E agora, nomes passaram a ser pessoas próximas, com endereço, características físicas e hábitos. Passaram a ser amigos e familiares próximos. Chegamos a aplicar três formulários, até que solicitamos a alguém da própria equipe para que pudesse dar sequência. Estávamos preparados para formatar a ferramenta, mas não aplicá-la. Sem dúvidas, esse foi o momento mais marcante de toda missão, do qual certamente não estávamos preparados para passar.

Por outro lado, a ferramenta funcionou. Tínhamos ali informações mais precisas do local onde possivelmente a pessoa estava quando ocorreu o desastre, se haviam outras pessoas próximas, se ele estava em algum veículo. Informações que poderiam ser cruzadas com os dados de localização de outras pessoas, para entender o deslocamento que ocorreu e chegar até os desaparecidos com maior rapidez e eficiência. Tudo isso relacionado com nível de confiabilidade da informação para cruzamentos futuros.

Porém, com a chegada da nova equipe, o momento era de tensão para passagem das informações gerais da operação. Momento este que ainda não contemplava a ferramenta criada. Nos afastamos da operação para dar privacidade, e de alguma forma nos sentimos tensos quanto nossa estada no local, já que não contávamos mais com Capitão Farah, Tristão e o Tenente Coronel ngelo. Apenas a Tenente Luiza continuou para dar sequência no projeto e passar as informações para um outro militar.

Até o final do dia, nossos distanciamento era nítido. Solicitamos novamente estada no local para no outro dia darmos início em nosso retorno. Dormimos no mesmo local de que chegamos, sem muito saber o que nos aguardava.

Dia 15.02 . SEXta-feira

Novamente, 05:30 da manhã em pé. Seguimos nosso ritual matinal e acordamos com um arco-íris inexplicável que ligava a mina, até a base de operações, sobre o local em que a lama passou. De todos os símbolos presentes até o momento, sem dúvida, este foi o mais marcante.

Ainda ressabiados, resolvemos nos instalar no mesmo local fornecido quando chegamos. Ligamos o computador, nos instalamos conforme o costume, e tivemos a aproximação do Tenente Coronel Passos, que agora era o comandante da operação.

O mesmo se mostrou interessado em saber o que havíamos realizado de trabalho. Foi então nosso primeiro contato de fato com a nova equipe, onde pudemos nos apresentar, explicar o que fazíamos e apresentar a ferramenta criada. Desde então, voltamos a estar confiantes quanto nossa operação, e conseguimos dar sequência aos trabalhos.

Fomos apresentados ao Capitão Josias, outra pessoa incrível, que desde então nos apoiou firmemente na aplicação de novas ferramentas para auxiliar no trabalho de mineração de dados com maior rapidez. Trocamos diversas ideias e adquirimos novos conhecimentos a cada conversa.

Finalizado nosso trabalho, criamos os acessos aos militares para que dessem continuidade na aplicação da mesma, garantindo que sairíamos de campo após a entrega. Formalizada a passagem do comando e explicação técnica, avisamos sobre nosso retorno.

Ali iniciou-se uma conversa informal com Tenente Coronel Passos, Capitão Josias e Major Neto, onde pudemos ouvir diversos elogios inenarráveis sobre nossa função e nossa missão realizada. Nosso prazer em ouvir tamanhas considerações nos fizeram ver que cada desafio enfrentado valera a pena.

Após a entrega da ferramenta e a exclusão de nossos acessos, seguimos para Belo Horizonte emocionados com tudo que havíamos vivido, em busca de recuperação para nosso retorno.

Dia 16.02 . Sábado

Saímos no sábado 07h30 acompanhado de muita chuva e diversas memórias que tivemos nesses poucos dias em que estivemos lá. Nosso objetivo seria chegar até Curitiba, porém alguns quilômetros antes, enfrentamos um engarrafamento por cerca de 3 horas. Durante esse tempo, repousamos até a liberação da pista. Acabamos passando por Curitiba e seguimos a viagem direto. Após 1400km, 24h de viagem, algumas paradas para abastecimento e café, chegamos em nossas casas 07h30 da manhã com sentimento de dever cumprido, e o desejo de ajudar ainda mais latente.

Infelizmente, durante toda estadia, foi possível ver a aflição de que novos casos como esse ainda podem ocorrer. Por isso, nossa missão não está dada como encerrada. Continuaremos a trabalhar nela para aplicação ainda no ínicio das atividades, fornecendo o máximo de auxílio a estes heróis, para que consigam resgatar pessoas ainda em vida. Enquanto uma solução definitiva não acontecer, continuaremos a lapidar a ferramenta para que seja ainda mais efetiva.

Sempre com fé de
que esse projeto
nunca mais seja
usado novamente.